A “Questão dos Lugares Santos”

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A “Questão dos Lugares Santos”

Firmano Turco

Este foi sem dúvida o período mais difícil na história plurissecular da Custódia da Terra Santa. Neste período foi comprovado que aqui na Terra Santa, nunca se pode estar seguro e despreparado, pois as coisas podem mudar a qualquer momento sem aviso prévio.

Foi um longo e penoso tempo de perseguições: tormentos, expulsões, exílios, roubo de direitos adquiridos com muito suor eram corriqueiros e causavam grandes problemas. Nos três séculos precedentes, a presença dos franciscanos tinha dado um peso preeminente aos Santuários. A Comunidade Franciscana já tinha tomado posse e construído o próprio convento no Monte Sião com o direito de celebrar de modo exclusivo no Santo Cenáculo, e celebrava com as outras comunidades cristãs no Santo Sepulcro, na Basílica de Santa Maria no Vale de Josafat e por fim na Basílica da Natividade em Belém. No que diz respeito ao Santo Sepulcro, no século XV, os franciscanos gozavam da posse exclusiva e pacífica da edícula onde se encontrava o Sepulcro, da Capela do Calvário e da Cripta onde foi encontrada a Cruz de Cristo.

Em 1517 a Palestina, dominada pelos Mamelucos, foi reprimida pelos sultões Turcos com quartel-general em Constantinopla.
As comunidades ortodoxas gregas, usufruindo da condição de súditos do império otomano, tiveram grande influência na Terra Santa.

A “competição” pela posse dos Lugares Santos fez com que as comunidades dessem início a uma campanha de difamação contra os franciscanos, apresentando-os como usurpadores, estrangeiros e inimigos do império turco. Naquele período a Custódia da Terra Santa foi obrigada a suportar calúnias e roubos.
O mais humilhante e gravoso foi a expulsão definitiva do Santo Cenáculo, ocorrida em 1552. O golpe foi duro: o convento do Monte Sião foi por dois séculos o centro de propulsão da atividade franciscana na Terra Santa.

Entre 1500 e 1800 a história dos Lugares Santos, no que toca o direito jurídico de posse, presenciou uma seqüência de perdas e também de algumas parciais recuperações.
O fato de não ter chegado a uma perda total da Basílica do Santo Sepulcro e daquela de Belém é devido à parcial e fatigosa ação dos responsáveis da Custódia.
Estes comprometeram as potências católicas para que estas fizessem valer o seu poder diplomático perante os sultões muçulmanos de Constantinopla visando a defesa dos direitos católicos dos Lugares Santos.
Até mesmo o Papa Urbano VII, com a Bula emanada em 1623, reafirmou que era dever e direito de todos os Príncipes católicos proteger os franciscanos da Terra Santa.

Enquanto isso nas Basílicas do Santo Sepulcro, de Belém e aquela do Túmulo de Maria no Vale de Josafat se registravam mais perdas de direitos jurídicos e os franciscanos na medida do possível conquistavam outros direitos em alguns Santuários diferentes.
Em 1620 tomaram definitivamente posse do lugar da Anunciação à Nazaré e foi concedido aos frades o Monte Tabor.
Estas duas aquisições foram possíveis graças à benevolência do Príncipe druso Fakhr-el Din.
Em 1684 os franciscanos adquiriram a área que compreendia o Getsêmani, e em 1679, aquela do santuário de São João Batista em Ain Karem.
Em 1754 foi obtido o santuário da Nutrição à Nazaré e em 1838 a área da Flagelação à Jerusalém.

Revendo a história da Custódia dos anos de 1500 até 1800 chamam atenção as variações de figura jurídica como também em campo eclesiástico. Variações estas, que correspondem à evolução da imagem jurídica do Padre Custódio.
O dominicano padre Felice Fabri, que visitou a Terra Santa duas vezes, em 1480 e 1483, nos apresenta o Padre Custódio da Terra Santa com o título e honra de “Provisor” para a Igreja Latina no Oriente, encargo como ele mesmo expressa, que o Papa freqüentemente atribuía a ele. A primeira vez em que o Padre Custódio veio apresentado como “Responsale” da S. Congregação de Propaganda Fide em quase todo o Oriente Médio foi em 1628. Também encontramos o Padre Custódio com a nomeação de “Prefeito das Missões do Egito e de Chipre”. Não podendo esquecer, temos ainda outra denominação e qualificação jurídica importante dada ao Custódio: “Comissário Apostólico da Terra Santa e do Oriente”. Todas estas monções restaram para o encargo do Padre Custódio até a reconstrução do Patriarcado Latino de Jerusalém em 1847.

Naturalmente a relação entre a Custódia da Terra Santa e o Ocidente católico foi marcada também pelo caráter de tipo econômico por motivo da organização franciscana que não contemplava somas de capital pré-constituídas nem de algum lucro possível no território da atividade missionária. A Custódia por tanto, sempre teve a necessidade de ser financiada por ajudas vindas do exterior. Séculos afora, os Papas recordavam em documentos muito importantes, à toda a igreja, a necessidade e o dever de ajudar a Terra Santa. Foram feitas prescrições que orientavam a realização de coletas periódicas feitas em todas as dioceses. A ajuda econômica dos governos europeus também foi muito providencial, mesmo que nem sempre adequado à necessidade material ou ao prestígio, aspectos, pelo contrário, de muita valia por se tratar de um contesto oriental onde a Custódia agia.
Sobre este aspecto, muita ajuda foi ofertada à Custódia por parte do Reino de Nápoles, concretamente expresso através da criação do “Comissariado de Nápoles” a partir do ano de 1621 que com a realização de ofertas e doações enviava os fundos à Terra Santa. Além deste, foi instituído em 1636 o Comissariado operante no Reino das duas Sicília, com sede em Messina seguido de outro em Palermo.
Em outra parte da Itália, Veneza consentiu um contínuo contato com a Terra Santa e os peregrinos que vinham transportados sobre as naus, garantindo-lhes uma viagem segura. Em 1593, chegou-se ao ponto de estabelecer que o Padre Custódio e os religiosos com ele eleitos ao governo dos frades que estavam a serviço dos Lugares Santos, embarcassem para o Oriente exclusivamente desta cidade portuária. Em 1520 o Senado Veneziano decidiu de fazer-se advogado do Guardião do Monte Sião, lembrando assim ao Papa que a Ordem Franciscana era custódia dos Lugares Santos pedindo assim para confirmar tal privilégio. Veneza empenhou-se pela defesa dos Lugares Santos, sobretudo graças às relações diplomáticas com Constantinopla.
A política da França em relação à Custódia teve expressão através as Capitulações, recebidas da França pela primeira vez em 1535 por parte do Sultão de Constantinopla Solimano II o Magnífico. Quando as capitulações estiveram em plena expansão em direção a Europa a por outras partes, o rei Francisco I assinou um acordo de ajuda contra Eurico VIII de Inglaterra. Isso causou grande escândalo entre os reinos cristãos da Europa.

Mas as Capitulações serviram, todavia, como ponte que permitiu aos Estados Muçulmanos de entrar em relações pacíficas e amigáveis com o mundo cristão. Para a França as capitulações constituíam a obrigação moral de intervir e proteger os franciscanos, através as intermediações de seus embaixadores a Constantinopla, que prestavam auxílio no momento de graves dificuldades existentes, sobretudo no século XVII. Em seguida, o cônsul da França residiria em Seyde, de onde si dirigia à Jerusalém para disciplinar possíveis questões pendentes. Em tais ocasiões ele recebia honras litúrgicas. Esta situação perdurou até 1793, mas as Capitulações desapareceram definitivamente só em 1917 com a ocupação aliada de Jerusalém, mesmo se juridicamente foram abolidas apenas em 1923 com o tratado de Lausanna.

O Protetorado Frances sobre todos os católicos, teve início com o rei Luís XIV, que pretendia ser o defensor dos cristãos do Império Otomano. Ele conseguiu obter tal direito, mas em um modo implícito e com termos definitivamente muito ambíguos. Somente com Luís XV, com as Capitulações de 1740, que o direito de Protetorado da França veio sancionado e reconhecido oficialmente. Tudo isto graças também ao papel que a França havia conquistado em favor do Império Otomano no tratado de Belgrado. A Santa Sé reconheceu oficialmente o Protetorado Frances sobre todos os católicos, de todas as nacionalidades, inclusive os turcos, do Império Otomano e também sobre aqueles de Rito Oriental. Em 1870 a França se assustou, pois viu sendo nominado delegado apostólico o vigário patriarcal de Constantinopla. A França continuava com a idéia da proteção aos católicos e assim o fez para restabelecer as relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Turquia. Mas todos os protegidos da França que não eram cidadãos franceses suportavam de má vontade a proteção oferecida. Com o início do século XX, sempre mais religiosos não franceses deixavam de recorrer à proteção francesa, como resultado deste movimento somente os franceses acabavam dirigindo-se à França.
O Protetorado Frances continuou até o ano de 1923. Foi a Sam Remo que os representantes da França tiveram que renunciar. O ponto final veio com o tratado de paz em Losanna, assinado entre a Turquia e as Potências de Hirteza em 24 de julho de 1923. De toda esta longa tradição de diplomacia restam somente os honores litúrgicos, ainda conjugados entre o Vaticano e a França em alguns países que pertenciam ao Império Otomano.

A Espanha desde o início sempre se empenhou em ajudar os cristãos e os frades da Terra Santa, o fez através de grandes somas em dinheiro enviadas ao Oriente. Desde que os reinos de Aragão e de Castela se reuniram, o reis católicos assumiram o encargo de ajudar a Terra Santa e os frades guardiães dos santuários enviando cada ano, para tal fim, 1000 escudos. Em 1550 Carlos V aprovou as despesas para o restauro da Basílica do Santo Sepulcro. Em 1646 a S. Congregação emanava um decreto no qual vinha impedido, aos franciscanos de Terra Santa, de recuperar os santuários com dinheiro. Por tal motivo o rei espanhol ocupou-se diretamente de tal afazer, enviando um frade espanhol à corte de Constantinopla que obteve, em 11 anos, a devolução dos direitos franciscanos sobre os santuários que tinham sido furtados pelos Gregos.
Em 1714 veio reconstruída a Basílica do Santo Sepulcro e novamente os custos foram sustentados pelo rei espanhol. Além disso, foi constituída a Madri a chamada Caixa da “Obra Piedosa dos Lugares Santos” que administrava as ajudas para a Terra Santa.
Com Carlos III e com a Bula Real de 1772 foram defendidos os direitos espanhóis do Patronato sobre os Lugares Santos em resposta à Bula “In Supremo”, do Papa Bento IV, aonde tais direitos não vinham mencionados. Esta Cédula Real foi uma formidável prova de protesto a todos aqueles que interessavam-se com os problemas da Terra Santa. Para defender os próprios direitos, o rei obrigou o Papa Pio VI, em 1878, a publicar o breve “Inter Multiplices”, no qual dava razão às reivindicações de Carlos III. Mas este documento foi sucessivamente revogado pelo mesmo Papa por causa da situação política na Espanha. Em 1846 com a Bula “Romani Pontifices” a Santa Sé reunificou a Caixa de Espanha e aquela das Nações em uma única Caixa, para o sustento da Terra Santa. Em 1853 criou-se o Consulado Espanhol em Jerusalém, encarregado de proteger os religiosos espanhóis em Terra Santa e de administrar o dinheiro mandado pelo Procurador Geral aos frades. Tudo isso para garantir que o dinheiro não acabasse nas mãos do Patriarcado Latino reconhecido em 1848. Sob a pressão de Isabel II de Espanha, em 1853, foram fundados: o “Colégio de Priego” e em seguida os Colégios de Santiago de Compostela e por fim o de Cipiona.

Estes tinham como objetivo principal enviar os missionários à Terra Santa.
Enquanto era percorrido este último período que acabamos de apresentar, a Custódia continuava a ser marcada por muitas mortes causadas pela fé. Em 1530 os frades foram encarcerados por causa da legenda dos tesouros no Santo Sepulcro. Os infiéis tentaram empossar-se do famoso tesouro, mas não conseguiram apesar de terem deixado os frades presos por 27meses. Outra perseguição estourou na Palestina entre 1537 e 1540, quando os muçulmanos quiseram se vingar pela derrota em 1537. Mantiveram reféns os frades do Monte Sião e de Belém nas prisões de Damasco durante 38 meses. Em 1551 os frades foram expulsos do Monte Sião e tiveram que se empossar primeiramente da Torre do Forno e sucessivamente, em 1558, do atual Convento de São Salvador. Em 1548 deflagraram outras perseguições em Nazaré e os frades foram obrigados a se refugiar a Jerusalém. E a situação se repetiu no mesmo lugar entre os anos de 1632 e 1638. Outros frades pagaram com a sua vida por causa do ódio dos Gregos, por exemplo, o caso dos dois frades que viviam na Ilha de Candia, estes foram jogados no mar em 1560. Depois mais tarde, com a chegada de Napoleão à Terra Santa, deu-se em 1799 outras perseguições em Jerusalém e Ramleh. Como se não fosse o bastante, diversas vezes entre 1700 e 1800 o Oriente foi infestado pelas pestes que atingiram muçulmanos e cristãos.

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Calendário

01/04/2015 CELEBRAÇÕES

Gethsemane: 8.00 Mass (Passion sung) Holy Sepulchre: 8.00 Mass (Passion sung) & Daily Procession –10.00 Veneration of the Column – 16.00 Office

02/04/2015 CELEBRAÇÕES

Holy Sepulchre: 8.00 Entrance – The Lord's Supper & Procession of the Blessed Sacrament – 14.45 Office Cenacle – S. James – S. Mark: 15.30 Pilgrimage Gethsemane: 21.00 Holy Hour

03/04/2015 CELEBRAÇÕES

Calvary: 8.00 The Lord's Passion Via Crucis: 11.30 Holy Sepulchre: 16.00 Office – 20.10 Funeral Procession

05/04/2015 CELEBRAÇÕES

Easter Sunday Holy Sepulchre: 7.30 Simple Entrance – 8.00 Solemn Mass & Procession – 17.00 Daily Procession

06/04/2015 CELEBRAÇÕES

Emmaus (Qubeibeh): 10.00 Solemn Mass (Custos) – 14.30 Vespers Holy Sepulchre: 8.00 Solemn Mass – 17.00 Daily Procession

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